
Sempre tive uma reacção muito propria à morte. A pior que tive até hoje foi quando me deram a noticia de que um tio meu tinha morrido. Estava na faculdade com uns amigos, recebi uma chamada, do outro lado a minha mãedrastra deu-me a noticia. So tive tempo de me encostar à parede e escorregar até ao chão.
Não era que fosse o meu tio preferido, aquele com quem tivesse uma relação afectiva enorme, mas não estava à espera e sabia o quanto ele gostava de viver.
Não reagi assim a mais ninguém até agora. Nem à morte dos meus avós materno, do meu avó paterno, de outros tios, da avó emprestada, de conhecidos.
Acho mesmo que o choque nem foi igual ao que tive, quando confirmei as minhas desconfianças de que os meus irmãos e a minha mãe não tinham sobrevivido ao que quer que fosse que me tinha jugado para a cama do hospital em que acordei. Na altura passei dias a juntar peças de um puzzle que não entendia. A unica certeza era que não sabia deles, que estava sozinha naquele hospital sem saber o que me tinha acontecido. Talvez por isso, dias mais tarde quando o meu pai me contou o sucedido, apenas chorei o necessario para libertar a dor e não o choque.
Será por isso e por ter eu mesma enfrentado a morte de frente, que a encaro como algo definitivo, não há nada a fazer, não vale a pena fazer um pranto e saltar em histerismo (pelo menos até agora). Claro que sinto a perda, que não gosto, que me deixa desconfortável, que acabo por me lembrar do passado e talvez até, chorar o que não chorei na altura devida, derramar uma lágrima.
Hoje foi um dia desses. A noticia da morte do Enke apanhou-me de surpresa. Pois, não o conhecia, não sabia dele mais do que todos sabemos. Antigo guarda-redes do benfica, da selecção Alemã, pouco mais.
Não sei se o facto de saber isso, de ser uma pessoa jovem, se das circunstâncias da morte, mas dei por mim a sentar-me...e a derramar uma lágrima.
Estarei hoje sensivel? Serei demasiado lamechas? Serei apenas humana?